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Tuesday, January 16, 2007

Curso: 1º CICLO; 180 ECTS
LICENCIATURA EM CULTURA VISUALCurso Nº: 9067 Nº de Registo: R/B-AD-381/2006
Unidade Curricular:
IMAGEM E ARTES PERFORMATIVASCódigo: PPTC36IP

Ano: 3º
Créditos ECTS:
3
Tipo: TP
Teórico-Prática
Tempo de Trabalho (Horas)
Semestre: 6º
Total: 80
Contacto: 60
Área Cientifica: Teoria do Projecto, da Produção eda Comunicação Código: PP
Regente:Doutor Luís Carmelo, Prof. Associado
Competências a Adquirir: Compreender e interpretar os elementos visuais presentes no corpo (teatro / dança) em evolução no espaço assim como os documentos-imagem que os fixam.
Sabe analisar as questões referenciais da teatralidade imprescindíveis para a construção da imagem visual na performance.
Descrição do Programa:
1. Percepção cultural e imagem; 2. Corpo do performer: produtor e transmissor de signos; 3. A linguagem plural da performance (elementos cinestésicos, linguísticos, plásticos, rítmicos e musicais); 4. O corpo e a visualização /sinalização de espaços imaginários e metafóricos; 5. Criação de imagens móveis e complexas; 6. Construções ficcionais na interligação entre corpo e imagem; 7. Corpo e design do efémero.
Metodologia:
A metodologia basear-se-á em unidades didácticas de duas aulas, ancoradas na experimentação, na reflexão e na vivenciação de processos de criação de imagem através da mobilização expressiva do corpo.
Avaliação:
Condições para aprovação com classificação a partir de 10 – Suficiente:
a) elaboração de um trabalho de pesquisa e análise, respeitando a metodologia e as normas do trabalho científico (enunciados no Livro de Estilos do IADE) que demonstre um conhecimento suficiente da bibliografia recomendada; b) teste de avaliação com classificação “suficiente”; c) assiduidade e investimento qualitativo nas aulas (valendo até 20% da avaliação final); d) expressão (organização de ideias) correcta.
Condições para aprovação com classificação a partir de 14 – Bom:
a) trabalho de de pesquisa e análise que demonstre um bom conhecimento da bibliografia recomendada; b) teste de avaliação com classificação “bom”; c) assiduidade e investimento qualitativo nas aulas; d) expressão correcta, objectiva e comunicativamente eficiente.
Condições para aprovação com classificação a partir de 16 – Muito Bom:
a) trabalho de pesquisa e análise que demonstre i) conhecimento aprofundado da bibliografia recomendada; ii) revisão da bibliografia actual; iii) pesquisa de outras fontes; b) teste de avaliação com classificação “muito bom”; c) assiduidade e investimento qualitativo nas aulas; d) expressão correcta, objectiva e logicamente estruturada.
Condições para aprovação com classificação a partir de 18 – Excelente:
a) trabalho de pesquisa e análise que demonstre: i) conhecimento aprofundado da bibliografia recomendada; ii) revisão da bibliografia actual e pesquisa de outras fontes; iii) interpretação pessoal justificada; b) teste de avaliação com classificação “excelente”; c) assiduidade e investimento qualitativo nas aulas; d) expressão correcta, logicamente estruturada e comunicativamente expressiva.
Bibliografia:
1/ BROOK, P., 1997, L´Espace vide: écrits sur le théâtre, Editions du Seuil, Paris.
2/ ELAM, K., 2002, The Semiotics of Theatre and Drama, Routeledge, London/New York
3/ FRANCASTEL, P. 1998, A Visão e a imaginação, Edições 70, Lisboa
4/ KOBERNICK, M.,1989, Semiotics of the Drama and the Style of Eugene O´Neill, Benjamins, Amsterdam
5/ MULLER, H., 1993 (Org. F. Peixoto), Heiner Muller: Medeamaterial e Outros Textos, Paz e Terra, São Paulo

Friday, November 24, 2006





Thursday, May 19, 2005




Saturday, February 26, 2005

a primeira flor branca da ameixoeira do meu quintal apareceu hoje de manhã

Wednesday, February 16, 2005

Acabo de saber que o meu próximo livro, o ensaio A Grande Viragem (subtítulo: O terrorismo. A viragem profética actual. Textos inéditos do séc. XVI. O milénio) sairá no próximo mês de Abril com a chancela das Publicações Europa-América.

Tuesday, February 15, 2005

Se for à National Gallery, em Londres, poderá recorrer ao programa "ArtStart" que permite interagir instantaneamente com simulações de obras de arte famosas e, portanto, descobrir detalhes ínfimos que, até agora, eram impossíveis de descortinar através do olhar corrente.É o que acontece com "O retrato de Arnolfini" do flamengo Jan van Eyck, o qual, segundo parece, tem mais histórias ocultadas daquilo que se possa imaginar.A partir de agora, o poder de vaticinar histórias sobre figuras invisíveis da história da pintura universal vai deixar de ser um dom exclusivo de Dan Brown. Qualquer alegre mortal poderá passar a celebrar tais vaticínios. É tudo uma questão de tocar.Tocar na imaterialidade mística dos pixels e, de repente, sentir a glacialidade da mão de Deus, ou dos deuses: that´s what it´s all about.Continuamos com o mesmo fascínio de Huijgens, apenas trocámos a roldana, a lente e a matéria pelos domínios ilimitados do interface on-line.

Saturday, February 12, 2005

O dia das torres gémeas

teatro


Luís Carmelo


























PRIMEIRO ACTO


Jorge e Alba aparecem no terraço de uma das torres gémeas de Nova Iorque, ao fim da tarde do dia 10 de Setembro do ano de 2001. Vêm lentamente, com ar lânguido, lento, comprazido, próprio de quem se entregou, há escassos minutos, a algo muito intenso e sobretudo inesperado. À primeira vista, Jorge e Alba não parecem turistas. Jorge tem pouco mais de vinte anos e Alba cerca do dobro da idade. Encostam-se agora às grades, na direcção de Brooklyn. E depois de um longa pausa (ainda admirada e algo abismada), Jorge, meio provocatório, meio brincalhão, desfaz finalmente o silêncio:



JORGE

- E se eu me calasse de repente ?


ALBA

- Acho que, agora, neste momento, a vida deixaria de ter sentido.


JORGE

- Mas... o que é que a minha voz tem de especial ?


ALBA

- Não sei. É profunda. Faz-me lembrar o deserto.


JORGE

- Como é que isso é possível ?


ALBA

- Imagina os ventos à noite, as tempestades de areia, o pano das tendas a ressoar...


JORGE

- E o que é que a minha voz tem a ver com isso ?


ALBA

- Vejo-te nessa viagem, ao longe, a sonhar, sempre a sonhar. E sempre que falas é esse viajante beduíno que parece estar à minha frente a querer abraçar-me.


JORGE

- Nunca pensei que um elevador pudesse levar-nos tão a cima ! Acreditas em Deus, por acaso ?


ALBA

- Talvez, quem sabe ? Consegues imaginar as veias de Deus a dilatarem-se, enquanto, em grande esforço, Ele se põe a assoprar sobre o deserto, durante a noite ?


JORGE

- De Deus só imagino o cheiro a incenso e as ratas de sacristia. Uma chatice.


ALBA

- Mas acredita que foi com a tua voz que me seduziste, acreditas nisso ao menos ?


JORGE

- E se eu me calasse de repente ?


ALBA

- Outra vez ? Acho que, agora, neste momento, a vida deixaria mesmo de ter sentido.


JORGE

- A sério ?


ALBA

- O passado pouco importa, do futuro sabes tu mais do que eu. Sempre és mais novo. Mas, neste momento, agora, aqui, deixa-me, pelo menos, sentir a felicidade. Deixa-me dizer-te que me seduziste.


JORGE

- Mas eu não fiz nada para isso. Todas as tardes subo aqui à torre. Adoro o arrepio do elevador, gramo à brava ver os japoneses com as máquinas fotográficas e estou habituado a ver as pontes lá em baixo. Geralmente viro-me assim para a de Brooklyn. Adoro ver a noite a tomar conta da cidade, a pouco e pouco. Já aqui tenho passado noites inteiras...


ALBA

- E a vigilância ?


JORGE

- Escondo-me ali, por trás dos cabos do reservatório, à esquerda, estás a ver ?


ALBA

- Sim, imagino... e o que é que estás aí a fazer agora com o telemóvel ?


JORGE

- O que tu fazes, se calhar, com Deus. Envio mensagens e emito toques.


ALBA

- Toques ?


JORGE

- Sim, primo um número qualquer de um amigo ou de uma amiga e deixo tocar três
vezes.

ALBA

- Porquê três vezes ?


JORGE

- Isso devias tu perguntar a Deus.


ALBA

- Afinal és muito mais espirituoso do que te pintas, rapaz ! Ainda me estavas a querer dizer que não eras sedutor...


JORGE

- Eu não disse isso. Só te disse que não fiz nada, de propósito, para te seduzir. Limitei-me a perguntar-te as horas e só ainda vínhamos no sexto ou no sétimo piso. Depois...


(ALBA tapa a boca de JORGE com a palma da mão toda aberta. Faz-se sentir uma breve e imprevista pausa)


ALBA

- Schhhiu. Não fales agora.


JORGE

- Ainda há minutos estávamos no bem bom e agora estás armada em santa pura ?


ALBA

- Não é nada disso. Bah. Há uma parte de ti que é insuportável !


JORGE

- Só uma parte ?


ALBA

- Não brinques, vá lá. Por um lado, quando me olhas, eu sinto que, como dizer... que entras dentro de mim. É como se penetrasses bem dentro do meu olhar e me obrigasses a devolver-te toda a minha história.


JORGE

- Grande história !


ALBA

- Cala-te. Por outro lado, e é isso que é insuportável, pareces estar sempre a alimentar uma espécie de desdém, de orgulho estúpido, percebes ?


JORGE

- A minha namorada também diz isso. Está sempre a praguejar que eu sou muito orgulhoso...


(Mudança súbita e talvez um pouco desconcertante de ALBA)


ALBA

- Eu também tenho um amante.


JORGE

- Por que é que dizes “também” ?


ALBA

- Não sei, não intersessa, nem sei por que é que o disse. Mas vês, vês, conseguiste agora, ao menos, ouvir a tua própria voz ? Viste bem o tom com que agora falaste ? Sem quereres, até és terno. Até és...


JORGE

- Sempre que ouvi a minha voz num gravador, senti que aquilo era a coisa mais estranha do mundo. Uma espécie de estrépido com cheiro a mofo.


ALBA

- Isso não era a tua voz. era uma reprodução.


JORGE

- Tudo à tua volta é apenas reprodução: roupas, relógios, vigas, prédios, carros e até os toques do telemóvel.


(ALBA retoma um tom algo maternal)


ALBA

- Tudo menos Deus, não é ?


JORGE

- Num sítio destes, esse nem é sequer aqui chamado. Já subimos tão alto !


ALBA

- Que grande prosápia !


JORGE

- Sabes que é raro o elevador vir só com duas pessoas ?


ALBA

- Mas hoje estava escrito que viria.


JORGE

- Sabes bem que me limitei a perguntar-te as horas.


ALBA

- Não recomeces. Mas, olha, tinhas que ter dito alguma coisa. Era o destino.


JORGE

- Isso não existe !


ALBA

- Isso... o quê ?


JORGE

- O que acabaste de dizer, o destino.


ALBA

- O que sabes tu disso? ...

JORGE

- Se calhar sei mais do que tu pensas... a minha namorada também dizia que acreditava no destino. Um belo dia, vinha ela de mão dada numa rua de East Village com o ex-namorado que se chamava Paulo e não é que um autocarro desses da escola o levou pelos ares !


(ALBA abandona o tom ainda algo maternal e fica impressionada com a frieza de Jorge)


ALBA

- Isso foi verdade ?


JORGE

- Foi, foi... limpinho. Ela ficou pirada, transtornada, parecia, olha... nem sei explicar.


ALBA

- Que coisa horrível.


JORGE

- Os gajos tinham vindo de muito longe cá para a cidade.


ALBA

- De onde ?


JORGE

- Acho que do Norte do Texas. O tipo era como se fosse pai dela e um dia decidiu partir. Deixar tudo o que tinha, até o próprio emprego. Comprou um carro e meteu a miuda no lugar do morto. Apaixonaram-se durante a viagem. E foi o destino que os trouxe aqui, diziam eles...


ALBA

- Até que...


JORGE

- Até que aquilo lhes aconteceu. O gajo morreu de repente. Ali, em frente dela.


ALBA

- E como é que a conheceste ?


JORGE

- Num bar ali em baixo, em Lafayette Street. Passei por lá depois de mais um fim de tarde destes em que, como sempre, tinha subido aqui acima. Por acaso, nesse dia, tinha estado ali na outra torre.


ALBA

- E foi tudo assim... também muito... rápido entre vocês ?


JORGE

- Foi no vão das escadas do apartamento dela...


(ALBa como que perde de novo o pé e decide, de modo hilariante, contar uma história com o intuito de tentar chocar JORGE)


ALBA

- Pára. Nem sei por que te estou a fazer estas perguntas. Sabias que a mulher do meu amante matou o próprio pai ?


JORGE

- Não. E isso deve ser mentira...


ALBA

- É uma italiana que é actriz. Uma actriz secundária, já se vê.


JORGE

- E por que matou ela o pai ?


ALBA

- Por legítima defesa. O pai adorava o Mussolini e, um dia, passou-se. Entrou com uma pistola num bar e matou várias pessoas. Depois, dirigiu-se à casa da filha e disparou sobre os vidros da frente. Segundo me contou o meu amante, a sorte foi o cão tê-lo mordido numa das canelas. Ela depois fez o resto.


JORGE

- Deu-lhe um tiro ?


ALBA

- Acho que sim.


(Contrastando com o tom das confissões cruzadas, JORGE, em tom paródico, faz da mão pistola e dá duas voltas sobre si, sempre a imitar os sons de balas)


JORGE

- Pum, pum, pum !


(ALBA acha graça e parece esquecer o seu ar hilariante de há segundos atrás)


ALBA

- Tens uns gestos muito engraçados !


JORGE - Ando muito de skate, sabes ? Estou bem treinado. Vê bem estes músculos aqui !


ALBA

- Um autêntico Rambo !


(Jorge olha para os músculos. Pausa a sugerir que parece também ele estar esquecido do fio da conversa e, de repente, sem que nada o fizesse prever, inflecte em direcção completamente diferente)


JORGE

- Diz-me lá: por que é que vieste aqui a Nova Iorque e a esta torre ? porquê ?


ALBA

- Sempre foi um sonho. Juntei dinheiro, atravessei o Atlântico e vim aqui direitinha.


JORGE

- Um sonho, isso ?


ALBA

- Sim, ou o que é que é para ti um sonho ?


(Subitamente com ar lunático)


JORGE

- Às vezes, à noite, dou comigo a sonhar com a minha namorada e sei que ela, de repente, fica com os olhos da cor do fogo. Mas quanto mais me aproximo dela para lhe ver os olhos, mais longe ela parece estar. Como que se vira e se esconde. Parece assim uma espécie de folha de jarro que se enrola sobre si própria. É muito estranho !


(ALBA eternece-se com a narração de JORGE e sente, de repente e de modo não maternal, uma inusitada vontade de partilhar com ele um tempo infinito)


ALBA

- Vamos aqui passar hoje a noite ?


JORGE

- Estás com medo que eu vá para casa e que vá sonhar com a minha namorada ?


ALBA

- Talvez... mas não, não é medo. É antes uma certeza qualquer que eu tenho. Sei que... se quiseres passar aqui a noite toda comigo... é como se fôssemos passar uma vida inteira juntos. Deixa ver se te explico melhor: é como se esta noite que aí vem fosse a vida inteira, percebes ?


JORGE

- Estou a perceber, sim. Queres passar uma directa comigo para curtir como deve ser e depois, depois, nunca mais nos vemos, é isso ? Viste pela certa As Pontes de Madison Count e ficaste impressionada, foi isso ?


ALBA

- Ao falares da tua namorada, és um anjo. Ao falares de nós, pareces o belzebu, um verdadeiro diabinho à solta.


JORGE

Diabo, diabo... agora também devia dizer: o que é que tu sabes disso ?


ALBA

- Sei bem mais do que tu imaginas.


JORGE

- Calculo.


ALBA

- Mas queres passar hoje aqui a noite, ou não ?


(JORGE demonstra o seu poder ao gerir com eficácia uma pausa longa, aparentemente distendida, às vezes ameaçadora, ou plena de hesitação. É uma atitude que condensa a inquietação de ambos, mas sobretudo a súbita desesperança de ALBA)


JORGE

- OK. Aceito. Logo que isto fechar, às onze e meia, temos, portanto, que nos esconder ali ao fundo, por trás dos cabos do reservatório.


ALBA

- E tens a certeza de que não nos vão descobrir ?


JORGE

- Absoluta.







































SEGUNDO ACTO


É quase meia-noite. Alba e Jorge estão sós no amplo terraço de uma das torres gémeas de Nova Iorque. A noite de Setembro está inesperadamente quente. Após algum silêncio que, por instantes, deu ênfase e nitidez aos sons da cidade, Jorge retirou com delicadeza as mãos de Alba que estavam pousadas nos seus ombros e perguntou:



JORGE

- Sabes por que é que eu me chamo Jorge ?


ALBA

- Não. Talvez porque os teus pais fossem admiradores de algum rei inglês.


(Risos)


JORGE

- Não é nada disso. Foi por causa de George Willig que, em 1977, precisamente no ano em que eu nasci, subiu esta torre com uns grampos que ele próprio fabricou. Tenho lá em casa, no meu quarto, duas réplicas desses grampos. São compridos e azulados. São o máximo, acredita !


ALBA

- Estou a perceber.


JORGE

- Também tenho lá em casa um bocadinho da corda que Philippe Petit utilizou para passar daquela torre para esta, em 1974. Tive que convencer o meu pai a pagar uns belos oitocentos dólares a um sobrinho do Philippe. Depois, coloquei o resto da corda numa cristaleira onde o meu irmão colecciona miniaturas da estátua da liberdade. É uma mania do gajo. Desde que leu o Leviatã do Paul Auster que anda naquela...


ALBA

- A vossa família é mesmo de coleccionadores !


JORGE

- E olha, o que me falta ainda arranjar é parte do pára-quedas de Owen Quinn. Foi o único, até hoje, que desceu assim aquela torre. Nos últimos tempos, esse tem sido o meu principal objectivo na vida. E qual é o teu ?


ALBA

- Deve ter sido encontrar-te e ouvir-te, aqui.


JORGE

Não é isso, o que eu te perguntei foi: qual é o teu maior objectivo consciente, na vida ?


ALBA

- Faço lá ideia. Neste momento, talvez apenas imaginar-te a sonhar com os meus olhos que teriam, de repente, a cor destas luzes todas frenéticas, ali em baixo na cidade. E tu a sonhares e a tentares ver-me os olhos e eu a escapar-me e tu a perseguir-me...


JORGE

- Querias que fizesse contigo o que faço com a minha namorada !


ALBA

- Já o fizeste, Jorge... Willig.


JORGE

- Não, ainda não fiz. Mas se quiseres, faço.


ALBA

- Eu sou toda tua nesta noite, sabes que foi esse o nosso pacto.


JORGE

- Sabes que a minha namorada era chicoteada pelo ex-namorado ?


ALBA

- Porquê ?


JORGE

- Ora, gostava...


ALBA

- E vocês... também praticam esse... jogo ?


JORGE

- Isso é quereres saber de mais... pergunto-te eu: e o teu amante já alguma vez te bateu ?


ALBA

- Duas vezes.


JORGE

- Entre nós... quem usa o chicote agora é ela, a minha namorada.


ALBA

-Mas porquê ?


JORGE

- Fazes com cada pergunta ! Faz parte, sei lá. Há coisas que acontecem que não têm explicação, não é assim ?


ALBA

- Eu só sei que não quero perder esta noite.


(Alba pára subitamente o raciocínio e o tom de quase imploração em que caíra. Uma pausa súbita invade-a, no momento em que dois gigantes meteoritos cruzam os céus da cidade, no lado do Hudson)


ALBA

- Olha Jorge, olha !


JORGE

- Éh !


ALBA

- Eu sabia que isto iria acontecer, eu sabia !


JORGE

- Tens a mania que sabes tudo... e eu que só os vi cair ali, no fim, para os lados Ellis Island !


ALBA

- Eu acompanhei-lhes a curva toda. Que beleza. Só por isto já teria valido a pena vir aqui a Nova Iorque !


JORGE

- Tens poucas ambições na vida, não é ?


ALBA

- Sabes, quando era pequena eu tinha um urso branco. Sempre que mudávamos de casa, levava-o comigo. Uma vez, o urso desapareceu e eu fiquei estarrecida. Era como se me tivessem amputado. Procurámos por todo o lado e... nada. Desde aí e... durante muitos anos, vários foram os ursos brancos que fui tendo. Ainda há duas semanas comprei o último. Mas duram sempre pouco. Nenhum deles consegue voltar a dar-me o que o primeiro me deu, essa é que é a verdade. De que vale, portanto, ambicionar aquele primeiro urso que já não posso vir a ter ?


JORGE

- Ah... mas tu estás a falar de coisas que perdeste e não daquilo que se deve ambicionar...


ALBA

- E o que é que se deve ambicionar ?


JORGE

- Sei lá. Sucesso, dinheiro, conhecer coisas, viajar, viver bem. Sei lá. Eu gosto de coleccionar coisas ligadas a esta torre. Gostava de voar...


ALBA

- E... não ambicionas tornar a ver os meteoritos que agora aqui mesmo passaram ?


JORGE

- És maluca... para quê ? Se nunca mais vão tornar a passar da mesma maneira !


ALBA

- Tu... ora dizes que queres coleccionar bocadinhos de pára-quedas e andar aí a voar e a sonhar, como depois gostas de mostrar que és capaz de ser indiferente, frio, estóico... !


JORGE

- Estói... quê ? Que bicho é esse ?


ALBA

- Estóico, estóico. Quer dizer... que sabes resistir às dificuldades...


JORGE

- O que eu acho é que esta noite se está a tornar difícil e chata.


(Como se Filipe não tivesse sequer aludido ao que acaba de aludir, ALBA dirige-se para o extremo limite so terraçõ da torre e aponta cá para baixo para a Rua Liberty)


ALBA

- Eras capaz de descer por aqui abaixo com a ajuda de cordas e botas especiais ?


(Jorge muda de rosto e fica, de um momento para ooutro, em estado de grande excitação)


JORGE

- Adorava, adorava. E sabes... eu tenho muitos planos, conheço até um amigo de Owen Quinn, um tipo que faz alpinismo nas Montanhas Rochosas, e que, um dia, se vai juntar a mim para... o que é aquilo ?


ALBA

- É um helicóptero.


JORGE

- É melhor recuarmos até ao reservatório, não nos vejam eles.


(Alba e Jorge correm até ao vão que se forma entre a conduta dos cabos e a área do reservatório)


ALBA

- Pronto, aqui já ninguém nos vê.


(Após breve pausa, ALBA coloca lentamente as suas mãos nas mãos de JORGE)


ALBA

- diz lá o que estavas a dizer. Esse teu amigo e tu têm um grande plano que é...


(O ar radioso, quase lunático, de JORGE reata agora toda a sua luminescência)


JORGE

- Sim, o nosso plano é dominarmos estas duas torres e pôr toda a gente da cidade a olhar para nós !


ALBA

- O quê ? O que é que isso quer dizer ? Dominarem estas torres e...


JORGE

- Quando nós os dois dizemos que queremos dominar estas torres, o que queremos dizere é que as havemos de subir e descer, pelo lado de fora, apenas pelos nossos meios e como nunca antes ninguém imaginou !


ALBA

- E como é que isso vai ser ?


JORGE

- Isso ainda é segredo. Um grande segredo.


(ALBA sente-se subitamente presa e fascinada pelo desígnio ofuscado de JORGE)


ALBA

- Vocês e os vossos segredos. Sabes... tens uma voz linda ! E agora os teus olhos pareciam iluminados com aquelas cores que tu dizes que vês em sonhos...


(Uma nova corrente de empatia entre os dois leva-os à partilha de carícias, aos sorrisos velados e ao persistente e intermitente olhos nos olhos)


ALBA

- E o que vês tu nos meus olhos ?


JORGE

- Vejo uma multidão imensa. Vejo lume e vejo meteoritos.


(JORGE ri-se, mas, depois, em escassos segundos, reata o ar normal, entre o sério e o cândido)


JORGE

- Vejo luzes, milhares de focos a iluminarem a minha escalada pela torre e, cá em cima, uma música muito colorida a tocar e o Mayor Giuliani, ao lado do maestro, com o pára-quedas de Owen Quinn como troféu para me ser oferecido.


ALBA

- Só vês isso ?


JORGE

- Não. Vejo também outras coisas. Muitas outras coisas.


ALBA

- O quê ?


JORGE

- Não posso dizer, juro que não posso dizer.


(Alba levanta-se, afasta-se de JORGE, mas mantém-se sempre nas trazeiras do reservatório. Olha, por segundos, na direcção das manchas quase unidas do Edifício Chrysler e do Empire State Building e reage, depois, com uma espécie de fuga para a frente... como se quisesse, agora ela, também, impressionar JORGE)


ALBA

- Quando regressar à Europa, eu e o meu amante vamos matar a mulher dele e fugimos depois para a Argentina. Está combinado. Tinha que o confessar a alguém. Como vês não faço segredos para ti. Nesta noite, sou toda tua, já tu disse, e só queria que tu fosses meu...


JORGE

- Mas eu não sou capaz de contar os meus planos a ninguém. Só me entendo com esse meu amigo...


ALBA

- E esse teu amigo existe ?


(JORGE repõe o seu ar de lunático)


JORGE

- Existe da mesma maneira como tu existes aqui à minha frente. Falamos muito um com o outro. Ele na cristaleira onde o meu irmão guarda as miniaturas da estátua da liberdade e eu na cadeira de verga que pertenceu a James Doohan que foi guia do Empire State Building. Ele nas Montanhas Rochosas a dominar os cumes e os vales mais profundos, eu a visitar todos os dias esta torre e a planificar o grande dia.


ALBA

- O grande dia ?


JORGE

- Sim, o dia em que nada voltará a ser como dantes. O dia em que, se calhar, tu já estás na Argentina a comemorar a tua vitória, o sangue vertido...


ALBA

- Tu, às vezes, assustas-me.


JORGE

- Mas eu não vou matar ninguém !


ALBA

- Já o fizeste, Jorge. Já o fizeste. Mataste o teu amigo antes dele existir.


(Jorge encoleriza-se)


JORGE

- Tu não entendes nada. Para ti... Deus é um ursinho branco e o destino é uma actriz secundária que matou o pai caída num lago, a meio da noite. Para mim, Deus é um osso de cão já perdido e o destino... foi ter ficado aqui nesta merda de noite. Eu não tenho nada que tu tenhas, não tenho nada a ver contigo, nem te consigo contar seja o que for, ainda não percebeste isso ?


ALBA

- Quando queres magoar, sabes fazê-lo. Por que é que seria impossível amarmo-nos durante uma noite, como se essa noite fosse a vida inteira ?


JORGE

- Tretas.


(Agora estão os dois levantados e a circular, de novo, pela área aberta do telhado da torre. O ambiente é de desgaste, de crispação, de repentina tensão. Após um longo silêncio, ALBA vira-se para JORGE e confessa, sem mais, o inesperado)


ALBA

- É mentira. Não vou matar ninguém. Nem nunca a mulher do meu amante matou o pai dela. Nem sequer tenho amante nenhum.


JORGE

- Já desconfiava, já desconfiava que era assim. E diz-me lá: o que é que te resta no meio disto tudo ?


ALBA

- A tua voz. Mais nada.




















TERCEIRO ACTO


ALBA e JORGE acordam no momento em que os primeiros raios de sol invadem a cidade, dos lados de Greenpoint. Durante umas duas horas dormitaram junto ao reservatório. JORGE espreguiça-se e, com ar paródico, carrega com o dedo indicador no nariz de ALBA. Aperta depois a camisa com as duas mãos... como se quisesse proteger o colarinho. Finalmente, com muito vagar, levanta-se, repete de modo exagerado os gestos de quem se espreguiça indefinidamente e, por fim, dirige-se a ALBA:



JORGE

- Às nove e meia, ainda faltam quase três horas..., apanhamos o último elevador, descemos e fechamos o nosso pacto de vez. Seja como for, ainda podíamos tomar o pequeno-almoço juntos, não achas ?


(Como se se quisesse antecipar ao desfecho proposto por JORGE, ALBA responde:)


ALBA

- Sabes por que é que eu me chamo Alba ?


JORGE

- Não.


ALBA

- Porque nasci precisamente a esta hora. É a esta hora que eu começo para a vida. Olha bem para mim e deixa lá o resto...


(JORGE olha para os olhos de ALBA e fica estupefacto)


JORGE

- Mas os teus olhos mudaram de cor. E lá dentro... parece que há qualquer coisa que está a mexer !


ALBA

- Repara bem !


JORGE

- Extraordinário, é como se fosse um fogo. É assim... da cor daquelas nuvens, lá ao longe, violeta claro ou púrpura. Que estranho !


ALBA

- Tenho isto todos os dias a esta hora. Desde pequena. A minha mãe pedia-me sempre para estar a dormir a esta hora, tinha medo que alguém descobrisse e... sei lá... que me fizesse mal.


(JORGE continua a olhar fascinado)


JORGE

- Fantástico, simpesmente fantástico. Olha, começa agora a diminuir.


ALBA

- Pois é, isto dura um minuto, pouco mais.


JORGE

- Mas por que é que tens isto ?


ALBA

- Não foste tu que disseste que há muitas coisas na vida que não têm explicação ?


JORGE

- Se eu soubesse... nem te tinha contado aqueles sonhos que tenho, às vezes, com a minha namorada !


ALBA

- É o que te digo... estava escrito. O destino existe mesmo. É por isso que eu dizia, há bocado, que, às vezes, tu me assustas.


JORGE

- Porquê ?


ALBA

- Porque sinto que... há coisas que me escondes.


JORGE

- Não penses nisso.


ALBA

- Não, não penso. Digo.


(Breve pausa, enquanto JORGE se certifica que os olhos de ALBA voltaram à sua cor normal)


JORGE

- Agora que a noite já quase acaba, vou contar-te uma dessas coisas escondidas.


(ALBA, de repente, assemelha-se a uma menina curiosíssima)


ALBA

- Conta, conta !


JORGE

- Não foi o acaso que ontem nos colocou aos dois no elevador.


ALBA

- Então... o que foi ?


JORGE

- Já te tinha visto no Centro Comercial, lá em baixo. E depois, quando te voltei a ver, pela segunda vez, junto dos elevadores, corri a acompanhar-te. Ou seja... colei-me ao acaso.


ALBA

- Por outras palavras, forçaste o acaso que já lá estava a pairar... mas porquê ?


(JORGE recobre a expressão com um ar de ambiguidade algo infantil)


JORGE

- Sei lá. O meu pai diz que há pessoas que têm aura. Talvez fosse isso.


ALBA

- Aura ? O que é que queres dizer com isso ?


JORGE

- Se calhar é o que tu dizes que existe na minha voz...


(JORGE corta subitamente a frase e ironiza o tom utilizado ontem por ALBA. Através de gestos vistosos e de alguma mímica leva ao ridículo a descrição de ALBA)


JORGE

- ... Uma voz profunda, cheia de ventos da noite, com muitas tempestades de areia e ainda a crepitar no pano das tendas a ressoar ao longe !...


(ALBA finge que bate em JORGE, numa troca terna e paródica que liga os dois à atmosfera da madrugada que está a romper agora com mais força. JORGE, pouco depois, recebe um telefonema no seu telemóvel e fica a falar a um canto. ALBA está agora sozinha e vira-se para a crescente balbúrdia que singra, ao longe, na direcção da ponte de Williamsburg. É então que, com os olhos na plateia, ela confressa:)


ALBA

- E se eu contasse que afinal sou a Teresa, a portuguesa de Toronto ? E se eu contasse que, afinal, ele, o Jorge, é filho daquela ruiva que o meu amante empurrou para dentro da água, faz agora dois anos, no Rio de S. Lourenço ? E se eu contasse que o pretenso pai dele, do Jorge, é um canadiano louco, meio irmão do meu amante, e que a polícia seguiu, ao longo de meses, por desconfiar que, talvez por tara, roubava, em todo o lado, em bibliotecas, cafés, centros culturais, empresas, consultórios, escritórios, casas particulares e noutros lugares... fotografias da Jacqueline, antes ainda de se chamar Onassis ? E se eu contasse que o irmão do Jorge, o das miniaturas da estátua da liberdade, tal como ele, é filho do meu amante e não do psicopata e ladrão com quem vive desde que nasceu ? E se eu contasse que já andava na pista do Jorge, há uns dois ou três dias, até porque sabia da sua loucura pelas torres ? E se eu contasse que queria apenas levar o Jorge de volta, não para o entregar ao verdadeiro pai, mas apenas para que ele o pudesse ver de longe, como mo pediu ?


(JORGE acabou entretanto o telefonema. Guardou o telemóvel no bolso e olhou, com ar sisudo, para o relógio. Passa das sete e meia horas da manhã. O sol apareceu a leste, no horizonte. ALBA dirige-se agora a JORGE e pergunta-lhe, de modo cáustico:)


ALBA

- Então com quem é que estiveste a falar, durante este tempo todo ?


(JORGE sorri e prepara a resposta, com um certo calculismo, após breve pausa)


JORGE

- Com o meu amigo, com o meu amigo. Falámos cara a cara, de cristaleira a cristaleira. Ele, lá em casa, entre as miniaturas do meu irmão. Eu, aqui nesta cristaleira do céu, contigo, à espera do fim.


ALBA

- Do fim ?


JORGE

- O fim do nosso pacto é às nove e meia. É a hora em que reabre o elevador. 58 segundos para devorar os 107 andares da Tower Two.


ALBA

- E tu desejando que o fim aí chegue !


JORGE

- Ainda se ao menos continuasses a falar da minha voz profunda, cheia de ventos da noite... ou ainda se ao menos continuasses a dizer que eu te seduzi no elevador... ou, por exemplo, se ainda ao menos não acreditasses no que eu te disse sobre o acaso do nosso encontro... mas de tudo isso... o que sobra ? o quê, diz-me ?


ALBA

- O que viste nos meus olhos, talvez !


JORGE

- Já nem sei bem o que vi nos teus olhos ! Estou farto de ver miragens e de ouvir patifarias.


ALBA

- Tu mudas de humor com uma rapidez... mas com quem falaste tu, a sério, ao telefone que... te desarranjou todo o encanto ?


(Jorge aponta para a claridade que desponta no lado de Brooklyn)


JORGE

- Encanto é aquilo ali ao longe... sabes mesmo quem me telefonou ?


ALBA

- Não.


JORGE

- O meu padrinho. Do Canadá. O Robert. Contou-me tudo.


ALBA

- Teu padrinho, o... Robert ?


JORGE

- Ou não sabias tu que eu tinha um padrinho em Toronto que te conhece dos lençóis, minha puta ? E eu, agora, depois do que ele me contou, devia fazer-te o que tu fizeste à minha mãe, não era ?


ALBA

- Eu ?


JORGE

- Sim, foi o Robert em pessoa que me contou tudo. Só tu podias ter atirado a minha mãe atirado à água. Não havia outra hipótese.


(ALBA assusta-se com o ar enfurecido de JORGE e recua até às grades, a partir de onde não há saída, mas apenas abismo).


ALBA

- Isso é tudo mentira. É falso. Deixa-me ao menos explicar !


(JORGE avança até ALBA e esta sente-se verdadeiramente ameaçada. É o tudo ou nada, agora que as oito da manhã se aproximam, minuto a minuto. Mas JORGE dá uma última oportunidade a ALBA, depois de apertar e agitar os braços)


JORGE

- Diz lá então...


ALBA

- Sou amante do Robert, h´amuito tempo, é verdade. Desculpa ter-te mentido. E foi ele quem me pediu para te levar até ele. Queria ver-te de perto, só isso.


JORGE

- E por que é que ele me queria ver de perto, porquê ?


ALBA

- Porque tu és... não, não posso dizer. Atira-me daqui se quiseres. Tudo o que fiz foi por desespero. Eu amo aquele homem e sei que ele é... intolerável, turbulento. Mas... o que eu hei-de eu fazer ?


JORGE

- Mas por que é que ele me queria ver de perto, se estive com ele, há um mês ?


ALBA

- Tu ? Há um mês... com ele... lá no Canadá ?


JORGE

-Sim, sim. Lá no Canadá. Em Toronto.


ALBA

- Então tudo isto é uma imensa armadilha que ele me preparou. E agora estou aqui na tua frente como uma presa odiada e sem alibis !


JORGE

- Achas, achas isso minha grande cabra ?


ALBA

- Espera, poupa-me. Deixa-me dizer-te que...


(Com hesitação, JORGE retira a mão do pescoço de ALBA, no momento praticamente em que a havia colocado)


JORGE

- Diz lá minha santa fingida de merda, diz lá...


ALBA

- Eu nunca matei ninguém. E tenho que te dizer que sei quem é o teu verdadeiro pai.


JORGE

- O meu verdadeiro pai ?


ALBA

- A tua mãe foi o grande amor da vida do Robert. E se o teu pretenso pai ficou como ficou foi por causa disso, embora nunca viesse a saber a história toda. Nem eu a conheço, felizmente. Mas, a partir de certa altura, ainda eu nem conhecia bem o Robert, a tua mãe abandonou-o e ele... não perdoou. Foi só isso. Essa é que é a verdade. O que eu não sabia era que tu eras afilhado dele.


JORGE

- Como é que eu posso acreditar nessas histórias todas ?


ALBA

- Não sei. O que eu sei é que ele te está a utilizar para dares cabo de mim. Ele adora utilizar as pessoas. Sempre foi assim.


JORGE

- Como podes ter tanta certeza do que dizes ?


ALBA

- Deve querer ver-se livre de mim, não só porque, há dias, lhe disse o queria deixar para sempre. Mas também porque ele sabe que eu sei muita coisa. Não a história toda, mas muita coisa. Agora a sério, era ele quem queria ir viver para a Argentina. Para fugir à polícia. O que acabou por não ser necessário.


JORGE

- Para a Argentina ?


ALBA

- Sim, ele quis ir para a Argentina depois do crime que cometeu. Foi poucos dias antes de me ter conhecido.


JORGE

- Que crime... ?


ALBA

- Sabes bem a que crime me refiro. Eu nunca matei ninguém. E sei que o alibi do Robert foi uma mentira pegada. Só eu sei isso. Juro-te que foi ele quem atirou a tua mãe ao rio de S. Lourenço.


(JORGE, num decisivo acesso de fúria... quase empurra ALBA para lá das grades. Depois, subitamente recua. Agora, ALBA e JORGE estão longe um do outro, atordoados, como que ligando os extremos da diagonal desse quadrado gigante que é o terraço da Tower Two. Passa já das oito da manhã. Entre ambos, a verdade parece ter-se tornado num fio tenso e dissimulado, a oscilar entre muitos sentidos. Um e outro dirigem-se, por fim, à plateia e monologam:)


JORGE

- A verdade é que não vejo o Robert há mais de quatro anos. E só soube dele, muito de longe em longe, através do meu... pai. Não estive em Toronto há um mês, era mentira, tenho que confessar. Queria experimentá-la, à Alba, ou lá como é que ela se chama. Também... o que interessa o nome ?

- Mas por que me quereria o Robert ver por perto ? Para me olhar de alto a baixo... agora que já tenho quase vinte e quatro anos ? De facto, quando o vi, ainda era um rapaz de dezoito anos. Um puto quase virgem. Ainda nem sabia um décimo do que hoje sei acerca do pára-quedas de Owen Quinn. Talvez por isso o Robert me queira ver, talvez por isso.


(Repondo o ar lunático)


JORGE

- Quem sabe... se o Robert apenas quer que eu lhe conte, em pessoa, de homem para homem, a verdadeira história da minha namorada ? É que quando o autocarro passou por mim daquela maneira, faz agora dois anos, eu pnsei que a morte se cruzara comigo como nunca. Eu vi a morte a passar por mim, juro. E imaginei o resto. Vi em sonhos o amor puro. Vi em sonhos que morria e que ela, a minha namorada, ficava ali a olhar-me, enquanto eu lhe fazia adeus do outro mundo. Talvez fosse por isso, quem sabe ?


ALBA

- Eu ia deixá-lo. O Robert é caçador e adora matar e esfolar animais. Sei que matou a ruiva, assim ele a classificou ao longo de anos e anos e mais anos. Mas o que interessa agora, o nome ? A verdade é que ela era a mãe do Jorge. E mais: eu sei que, naquele dia, ela, a ruiva, não partiu sozinha de carro e com o atrelado do barco em direcção ao rio de S. Lourenço. Sou a única pessoa do mundo que sei isso, mas não poderei jamais denunciar esse facto à polícia, ou fosse lá a quem fosse. Seria a minha palavra contra a dele.

- Acreditem que jurei levar comigo o Jorge para o Canadá, fosse por que meios fosse. Tinha que o cativar. Era um jogo, sim, era mais um jogo do que uma promessa ou um juramento que eu devia ao Robert. Mas quando entrei naquele elevador, ontem, devo dizer que foi a terceira tarde que aqui vim à procura do Jorge, nunca pensei no que iria passar-se. Acreditem que a voz dele me seduziu e que há alguma verdade na felicidade que senti no início da noite !

- Quando as verdades chocam entre si, nem sempre há luz. Às vezes há terror. Pânico. Não digo medo, pois o medo tem um objecto preciso, tem um motivo certo. O pânico e o terror não. Esses vagueiam à solta, de caos em caos, à procura de uma morada, de uma forma, de uma palavra. Estou no topo, no termo, nas alturas. Para sempre. No cimo da torre, brota já a luz deste novo dia de Setembro, dia 11, 2001. O tempo adensa-se e passa. Até ao fim. Até ao primeiro elevador. Até que nos meus olhos volte a ver-se um lume brando e antigo. Até que...


(Ouve-se em todo o edifício um estrondo enorme. É um avião que embateu mais abaixo, entre o sexagésimo e o nonagésimo andares desta torre novaiorquina, onde JORGE e ALBA esperavam o elevador das nove e meia da manhã)

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